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Quinta-feira, Novembro 24, 2005
Posted
11:56 PM
by FELIPE LEAL
/Laranja Mecânica [A Clockwork Orange. UK 1971, de Stanley Kubrick] - 81/ [sobe de 77]
/Os Sonhadores [The Dreamers. FRA 2003, de Bernardo Bertolucci] - 54/ [cai de 79]
Quarta-feira, Novembro 09, 2005
Posted
11:48 PM
by FELIPE LEAL
Crying Fist [Coréia do Sul 2005, de Seung-wan Ryoo] - 59
/Amor a Flor da Pele [Fa yeung nin wa. Hong Kong 2000, de Wong Kar-Wai] - 97/
hoje eu revi o meu filme favorito da década no cinema, uma tela gigante caindo sobre a minha cabeça, sala silenciosa, som lindo. foi uma das experiências mais marcantes na minha vida cinematográfica. terceira vez. e ele fica cada vez mais lindo, sensitivo, dançante. puta que pariu.
Antes do Amanhecer [Before Sunrise. EUA 1995, de Richard Linklater] - 84
/Antes do Pôr-do-Sol [Before Sunset. EUA 2004, de Richard Linklater] - 93/
Ambos vistos em sequência, o segundo pela terceira vez, muito bem acompanhado. Sabe, essas coisas expandem os filmes.
Se for pra citar filmes que pra mim são os mais importantes dos últimos cinco anos, certamente iria citar: Amor A Flor da Pele, Embriagado de Amor e Antes do Pôr-do-Sol.
Doutor Fantástico [Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb. ING 1964, de Stanley Kubrick] - 82
01. 2001 - Uma Odisséia No Espaço 100
02. O Iluminado 88
03. Barry Lyndon 83
04. Dr. Fantástico 82
05. Spartacus 81
06. Laranja Mecânica 77
07. O Grande Golpe 75
08. Nascido Para Matar 74
09. Glória Feita de Sangue 70
O Samurai [Le Samouraï. FRA 1967, de Jean-Pierre Melville] - 58
Decepcionante. A atmosfera noir é interessante, é verdade. A atuação do Deloin é interessante, é verdade. A direção do Melville é decente, é verdade. Mas o roteiro é triste. É tão cheio de lugares comuns - talvez desgastado pelo tempo e pela repetição de suas idéias, o que não justifica já que os de Hitchcock, por exemplo, permanecem tão atuais quanto nos idos dos anos 40 - e maneirismos que tentam forçadamente dar uma aura enobrecida, mas ao mesmo tempo problemática ao personagem de Deloin, que é mal construído. O jogo de gato e rato em quê se baseia a trama narrativa é fútil, a polícia atrás do suspeito e este em meio a suas damas e aos dilemas entre o dinheiro - matador de aluguel - e uma base mais humana de sua personalidade - as mulheres, o pássaro, a fragilidade de um corte que não o tornaria indestrutível. Mas que reduzem o protagonista a um James Bond contido, sem o espetacular do britânico, mas tão datado quanto.
Doze é Demais [Cheaper by the Dozen. EUA 2003, de Shawn Levy] - 29
"Um grande poder trás grandes responsabilidades." Basicamente. Mas é tão bobinho e tão ordinário que incomoda. Os diálogos em close de Steve Martin com as filhas explicando-las que encontrou o emprego dos sonhos e que agora tem que escolher entre a família e o emprego são tentativa frustrada, única, creio eu, de dar algum valor ao que está sendo contado. O filme peca pelo excesso. Pelo excesso de crianças, as doze do título, pelo excesso de piadinhas infundadas e infantis, por atuações pífias do superboy e de Martin, e de um elenco mirim - que seria o ponto provável de valorização do filme - apagado. Só não sei por quem.
/Igual a Tudo Na Vida [Anything Else. EUA 2003, de Woody Allen] - 58/
Tem umas tiradas bem engraçadas e a construção do roteiro de certa forma é interessante, principalmente nas sequências psicanalíticas tanto com Dobel quanto com o profissional de fato. A sequência da cocaína é bem engraçada também. O grande problema é que a narrativa se fecha de forma sufocante em si mesmo, e fica desgastada. Eu não aguentava mais ouvir que a personagem de Cristina Ricci [que eu não acho nada demais em termos de libido, devo dizer] tinha problemas com sexo e não conseguia dormir a noite sem usar soníferos. O personagem de Jason Biggs é tão problemático que incomoda. Talvez pela boa atuação do rapaz, que faz um Allen metalinguistico, rejuvenecescido uns 50 anos. A discussão em torno da rejeição, que toma conta de absolutamente todo o filme, é infudada e tão estática quanto o próprio protagonista. Mas é interessante ainda ver determinados elementos puramente Woody Allen, como Billie Holiday até dizer chega, Diana Krall, discussões filosóficas e piadinhas infames sobre câmaras de gás em Auschwitz. Mas fica aquele cheiro de desgaste no cineasta. Match Point em breve chega e tenho expectativas muito maiores pra este, até porque, Scarlet Johansson está em cena.
/Sinais [Signs. EUA 2002, de M. Night Shyamalan] - 73/
É mais interessante do que você pensa, leitor. O grande problema é que Shyamalan faz um final mais ou menos pastelão, que estraga com grande parte do suspense contido ali. O modo como o diretor retrata as crianças é muito dúbio também, em certo momento elas estão com feições de assassinas psicopáticas e em outros como santos, o que de certa forma, essa dubiedade neste tratamento prejudica a análise mais profunda do filme. A carga que Sinais carrega é decente, porque por trás da trama demonstrada ali, há uma outra trama, que fala de um homem que perdeu a fé, seu objetivo de vida seria buscar novamente a fé, e quando este desiste da mesma, o conflito entre o imaginário e o alegórico com a sua crença se instaura e o corrói por dentro. A filha do padre, Bo, é o elemento santificado, que sob a tutela do padre, purifica as águas, que se tornam "água benta", única ação pertinente contra os extra-terrestres. Até porque, por própria inteligência do roteiro, em nenhum momento outros casos são demonstrados, apenas pelo fascínio exercido pela televisão, o que em hora alguma pode ser tido como verdade absoluta. A verdade é aquela que passa com eles ali, a família em franca decadência, martirizada pela ausência da figura materna, e que tenta enfrentar os demônios [os alienígenas] para enfim estar livre e garantir uma maior união. As cenas de suspense são bem conduzidas, e mesmo numa revisão, estas mantém uma carga de tensão boa. O jogo de claro/escuro com o qual brinca Shyamalan, que já o fez no fraco Sexto Sentido e no marromenos Corpo Fechado, aqui é expandido ao máximo, onde a cena no porão lembra um pouquinho A Noite dos Mortos Vivos ou então, numa referência mais clara a seu ídolo, Os Pássaros, de Hitchcock. Não assisti A Vila. Tenho vontade, bastante. Já o próximo do cara, Lady In The Water, previsto pro ano que vem, não vejo nenhuma novidade das mais tremendas, o campo do sobrenatural continua marcante, apesar que eu não curti o roteiro. Mas o elenco é bom hein. Giamatti e Bryce Dallas Howard.
/Os Doze Macacos [Twelve Monkeys. EUA 1995, de Terry Gilliam] - 77
Esse processe de revisões contínuas não foi programado. Acontece que tais filmes aparecem e eu acabo revendo-os. 12 Macacos é um dos meus filmes favoritos dos anos 90, a nota não reflete muito essa afirmação, provavelmente porque a amigdalite que assassinou minha garganta me fazia urrar de dor durante certas partes do filme, o que atrapalhou, é verdade. É complexo falar do filme de Gilliam, mas é uma das ficções científicas mais capazes dos últimos tempos, feito repetido por exemplo, em Gattaca, Donnie Darko, Brilho Eterno, Malkovich, Pi, etc. Até Bruce Willis faz uma atuação decente, não comparável ao surtado Pitt, que faz creio eu, seu melhor papel a carreira, mas ainda assim, as caras e bocas de "estou com hemorróidas" que aparecem na maioria dos filmes do careca, aqui não são muito repetidas. A trama é insana, mas demonstra uma congruência histórica e determina viagens no espaço de tempo e buscas pela organização secreta dos Doze Macacos. O roteiro é muito bom, e a trilha sonora - sempre marcante, quando revejo este filme - é completamente viciante. Acho que junto com Fogo Contra Fogo, Doze Macacos é o melhor de 1995.
Terça-feira, Novembro 08, 2005
Posted
5:32 PM
by FELIPE LEAL
DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL [1964, de Glauber Rocha]
"Eu parti do texto poético. A origem de Deus e o diabo é uma língua metafórica, a literatura de cordel. No Nordeste, os cegos, nos circos, nas feiras, nos teatros populares, começam uma história cantando: eu vou lhes contar uma história que é de verdade e de imaginação, ou então que é imaginação verdadeira. Toda minha formação foi feita nesse clima. A idéia do filme me veio espontaneamente." Glauber Rocha.
A violência é a manifestação cultural mais genuína da fome
Filme de 1964, Deus e o diabo na terra do sol, foi um dos pontos da máxima artística de Glauber Rocha, juntamente com Terra em transe (1967) e A idade da terra (1981). Foi em Deus e o diabo que seu lado revolucionário e intransigente com as mazelas sociais de um mundo imperialista se manifestou. Numa conjuntura onde a divisão desigual da terra corrói o sistema e promove ao sertanejo a exclusão social e a fome. Fome esta que é o principal resultado desta má distribuição, onde o vaqueiro/sertanejo não tem o quê comer da terra sofrida e se torna à mercê do poder econômico do senhor e dos donos dos meios de produção. Tomás Gutiérrez ¿Titón¿ Aléa, diretor cubano e amigo de Glauber na empreitada travada para a criação de um pensamento crítico do terceiro mundo contrário ás pressões unilaterais dominadoras, disse em seu filme Memórias Del subdesarollo, de 1962, que ¿O poder corrompe a justiça, e nem sempre estes caminham juntos.¿ A noção de justiça portanto, é um ato falho, em virtude do momento histórico e das relações estabelecidas, que a mitificam e a afastam do coletivo. O povo não come e isto é negligenciado, seja por conformismo ou pelo simples fato de que é tudo mais fácil assim, ao menos para quem tem dinheiro e poder.
Glauber escancara uma narrativa contada por cancioneiros cegos, beatos santificados, cangaceiros dos tempos de Antônio Conselheiro, camponeses famintos e donos de terra corruptos, seja pelo sistema ou por vontades individuais. É um verdadeiro retrato do interior nordestino, de personagens humanas que estão presentes numa ótica coletiva, mas que são massacrados pela própria perda de encaminhamento da vida e pela total falta de possibilidades de seguir adiante. O pensamento do camponês que não tem o quê comer é confuso, difuso. Este se choca com duas vertentes, dois caminhos que toma, ao trabalho escravo e do esmagamento ideológico e materialista que o senhorio coloca sobre si, ou então com uma vertente do misticismo, de ídolos caídos que prometem a vitória dos sofridos, onde o santo Sebastião, vestido de negro, conduzirá o rebanho à salvação. Em ambos os casos, o camponês está cego, este não pensa mais por si e pelo desenvolvimento de suas potencialidades, ele está escravo, por um lado, dos olhos de deus e do ópio da religião, e por outro, da imobilidade estática do trabalho servil. Sebastião conduz as ovelhas desgarradas a uma verdade ¿maior¿ que os tirará do mundo cruel onde vivem.
Conveniência que não muda o sistema, mas que amortece o tirocínio do momento vivido por alguém que assassina o opressor. O sertanejo é gerado pelo esquecimento, ele é tudo aquilo que é esquecido e negligenciado, é o feio. Manuel, cego como os cancioneiros que contam histórias nas feiras do Nordeste, afirma a Rosa, sua esposa que ¿o santo disse que ia haver um milagre e salvar todo mundo.¿ O milagre de certa forma humaniza a condição zoomorfizada de sua família, a sombra da morte que cobre o rosto da mãe de Rosa desde sua primeira aparição, quase premonitória, e a falta do quê comer e do quê pensar, já que a fome, como a defendida por Glauber em A estética da fome é além de nutricional, intelectual. Glauber afirmaria ainda que ¿A violência é a manifestação cultural mais genuína da fome.¿ Manuel assassinar brutalmente o senhorio a golpes de facão é apenas uma outra ótica de um meio onde o senhorio assassina dia após dia a capacidade do sertanejo, e o corrói com o manejo do sistema capitalista sobre si. A verdadeira violência, segundo Glauber, está naquele que não tem o quê comer, que come terra, calango, folhas, bebe água barrenta e anda quilômetros para bebê-la todos os dias. A violência em Deus e o diabo na terra do sol é mostrada de uma forma explosiva, crua e real, pois a estética glauberiana era de enquadrar uma realidade inefável e cruel, a realidade do terceiro mundo, a realidade que os cercavam e que muitos não queriam ver, numa estética expressionista e transformadora, adepta a inovações, como na montagem fragmentada do roteiro, juntamente com a idéia de trazer as idéias ao coletivo, ao todo, fundamentadas num teatro dramático das personagens, vinculadas ao pensamento de Brecht, que tanto influenciou Glauber.
O aspecto naturalista das personagens, seja de Manuel e Rosa ou dos outros camponeses, é escancarado e a aproximação da câmera com o ali narrado é muito grande, é a exaltação do cinema verdade, vertente de um cinema quase documental, onde o conluio com uma realidade deva ser mostrado como esta realmente ocorre. O que acontece aqui é que Glauber, diferentemente dos neo-realistas, como Rosselini, Visconti, Antonioni, por exemplo, inova também no sentido estético, porque para Glauber, sem estética não haveria arte e pensamento revolucionário organizado a surtir efeito naquele que o absorvesse. A narrativa fragmentária de Deus e o diabo onde os cortes abruptos em planos longos e contemplativos se unem a movimentações quase mágicas de um Antônio das Mortes, matador de cangaceiros, assassino, transcendem ao sentido tradicional de perspectiva narrativa. Sebastião é tão ou mais assassino que Antônio das Mortes. O santo padroeiro é um veículo de dominação cega, que faz com que Manuel assassine seu próprio filho a facadas. A mitificação aqui gerada pelo místico é tão forte que o sentido entorpecedor da seqüência é das mais memoráveis da carreira de Glauber. O processo dialético da religião e da liberdade que a mesma daria ou dá em relação com a realidade de Manuel é explosiva aqui, onde aquele que fará chover ouro também esconde uma faceta tão ou mais cruel quanto o dono dos bois.
O diabo loiro Corisco é a subversão da figura do santo Sebastião, mas não deixa de ser um refúgio a Manuel, que ganha a alcunha antes impensável de Satanás. A figura do homem indestrutível do cangaço é defendida e Manuel reafirma aqui a posição do homem sofrido que ganha redenção e afirmação. O cangaço é mais um grito marginalizado neste complexo sistema brutal nordestino. Rosa é figura de uma ótica verdadeira, que traz a verdade à tona e que tenta acabar com o enublamento fatal que cobre Manuel, seja com o santo Sebastião ou com a sina hereditária e perdida do cangaço de Corisco.
O desejo de lucidez aqui ainda se mantém nesta que conserva a vontade de liberdade sobre tal repressão coletiva. ¿O cinema deve ser a exata fotografia do povo¿, afirmaria Glauber.
pontos
- literatura de cordel. Elementos transformadores e na perspectiva de vida do nordestino, que se expandem com os rumos da perda de crença de uma personagem, que ausente no meio naturalista em que vive, busca em dois elementos dialéticos, a violência do cangaço, que é um movimento social, e nas ambas da manta do santo Sebastião, a ligação que necessita um homem perdido. Ele busca seu potencial próprio, que poderia ligar a um potencial transformador. O que é negado de certa forma por Antonio das mortes, que vê a religião e o cangaço como elementos paralisadores e atadores de desenvolvimentos revolucionários.
- A mentalidade do homem nordestino, que massacrado pela exploração de renda e de terra, pelo senhor desonesto, pega em facões para vence-lo, é um primeiro elemento já ligado a estética da fome, onde a maior manifestação cultura da violência seria a própria fome, fome nutritiva, de gente que come terra, e fome e a fome intelectual, a fome que leva a dois pontos a serem desenvolvidos. A esterelidade e a histeria. A histeria das esquerdas, que levam a um paternalismo primitivista que não gera elementos transformadores, e a uma esterelidade que cega potenciais desenvolvedores das consciências nacionais.
- A situação do nordestino é desnudada por uma câmera que filme como o cinema verdade, ela não tem medo de invadir e desnudar todas as perspectivas do que pensa e busca o homem daquela terra. A câmera mostra como o cinema neo-realista italiano, mas a montagem que é um dos grandes trunfos de Glauber rocha, se aproxima mais de eiseinstein, e mostra tudo numa base expressionista, pois não existe arte revolucionaria sem estética que a agregue e desenvolva de modo saudável.
- É um filme revolucionário porque mostra transformação, escancara tais personalidades, o cego cancioneiro que narra as passagens fílmicos num tom dantesco e operesco, é o paradoxo de uma composição da quinta bachiana de villa lobos com as canções dos cancioneiros das feiras populares, é o paradoxo porque mostra em elementos dialéticos o embate entre a religião e a violência para um ônus sobre a personalidade de Manuel. A violência, claro, pode ser violenta, e é. Tão ou mais que o cangaço de corisco.
- Antonio das mortes é um personagem perturbado que acredita que estas duas instituições acima não levam a absolutamente nada a não ser a redenção burra do individuo, ele mata os cangaceiros e os religiosos que salvam um homem perdido na própria personalidade e caminhos da vida.
- Rosa é a observadora dos caminhos que toma Manuel, desde a primeira cena onde a morte já faz parte de si, até os caminhos quando muda de lado e passa a fazer parte do cangaço para se unir a ele. O amor do feminismo ali representado é o toque do humanismo mesmo na estética cruel e seca do sertão nordestino.
- A linguagem metafórica do barroco não está em vista de excluir, mas sim o de metaforizar condições tão brutais num jogo dialético do escancarado com o elíptico.
- O esmagamento materialista que o camponês sofre do dono da terra em oposição ao esmagamento ideológico e espiritual que prega o beato Sebastião, torna-o cada vez mais perdido no meio que o cerca. A violência parece ser a única saída para uma conjuntura dessas.
- O teatro dramático das personagens, preconizado por Brecht, cujas atuações num fundo transformador, levariam a uma mudança de perspectiva num ambiente coletivo, já na proposta de cinema épico e didático do cinema novista.
Quarta-feira, Novembro 02, 2005
Posted
1:01 PM
by FELIPE LEAL
O Jardineiro Fiel [The Constant Gardener. UK 2005, de Fernando Meirelles.]- 73
As Bicicletas de Belleville [Les Triplettes de Belleville. FRA 2003, de Sylvain Chomet] - 52
Memórias del Subdesarollo [Cuba 1968, de Tomás Gutiérrez Alea] - 80
dá pra entender quando Glauber falava que não estava sozinho no processo de criação de uma identidade nova ao terceiro mundo.
O Demônio das Onze Horas [Pierrot Le Fou. FRA 1965, de Jean-Luc Godard] - 82
A Noite [La Notte. ITA 1961, de Michelangelo Antonioni] - 88
Tartarugas Podem Voar [Lakposhtha hâm parvaz mikonand. Iraque/Irã 2004, de Bahman Ghobadi] - 81]
Wow. Primeiro filme da mostra. Primeiro tapa na cara. 19 pessoas na sala, mas quem se importa. Lindo e fortíssimo ao mesmo tempo.
Cidade Baixa [BRA 2005, de Sergio Machado] - 76
Caché [Idem. FRA 2005, de Michael Haneke] - 92
Estou estarrecido.
Gosto de Chá [Cha no aji. JAP 2004, de Katsuhito Ishii] - 50
A Criança [L'enfant. BEL/FRA 2005, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne] - 78
Terça-feira, Novembro 01, 2005
Posted
3:26 PM
by FELIPE LEAL
A violência no cinema de Glauber Rocha
A violência que aparece nos seus filmes não é uma violência glamourizada, repleta de glamour como em algumas produções norte-americanas, que parecem nutrir um gosto sádico pelo sangue e pelo brutal. A violência nos filmes de Glauber Rocha e na maioria dos atores representativos do Cinema Novo é uma violência da realidade, uma violência crua que se confunde nos primórdios do cinema verdade, do cinema documental de aproximação da realidade de um povo sofrido. Essa é a verdadeira violência, a fome, a miséria, o ônus social de milhões de brasileiros que vivem na merda. Glauber desnuda estas realidades com sua câmera intuitiva e extremamente observativa, e mostra os elementos mais representativos do cotidiano dos sertanejos, daqueles que vivem à fome e que necessitam se apoiar em ídolos caídos do misticismo, como no sebastianismo de um deus mortal, na submissão ao trabalho escravo daquele que sofre a divisão da renda e se torna vítima do senhor de terras na má distribuição do capitalismo, ou que então se volta a violência. A violência é a mais genuína manifestação cultural daquele que tem fome, daquele que não tem absolutamente nada para comer, que come terra, que vê os bois morrendo e nada pode fazer pela falta de água. A crueldade e a verdadeira violência, que incomoda tanto os burgueses e as classes mais abastadas, está vigente e escancarada aí, basicamente porque o nosso sistema social e cultural, de transmissão ideológica falsa e unilateral, de moldar consciências coletivos voltados a uma perspectiva diferenciada, muitas vezes vendida ao cinema hollywoodiano. Esse sistema é a verdadeira violência.
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